#0084 Resenha do livro: "Feliz ano velho"
“Não quero que as pessoas me encarem como um rapaz que apesar de tudo transmite muita força. Não sou modelo para nada. Não sou herói, sou apenas vítima do destino, dentre milhões de destinos que nós não escolhemos. Aconteceu comigo. Injustamente, mas aconteceu. É foda, mas que jeito…” (trecho do livro)
Quando eu estava no ensino médio, lembro vagamente de escutar alguns comentários de colegas sobre o livro “Feliz ano velho”, sobre o quão boa havia sido aquela leitura, algumas informações entram em nossa mente ficam lá arquivadas esperando o dia de serem resgatadas, e também, daquele ser uma das obras de referência para o vestibular. Todavia, não fiz a leitura, e assim ficou até eu assistir ao filme “Ainda estou aqui”.
Como muitos brasileiros fiquei completamente encantado com o filme: “Ainda estou aqui” com a história da Eunice Paiva que tem seu marido capturado pelos milicos. Fiquei ainda mais encantado quando descobri que era uma história da família de um escritor, Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e que também era autor do livro: “Feliz ano velho”. E te faz refletir como seria uma ditadura nos dias de hoje. Então a sorte ou o destino, usando as palavras do livro, uma colega me emprestou e me indicou a leitura.
O livro já começa te arrebentando, pois inicia com a descrição do acidente:
“— Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.
Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça e foi aí que ouvi a melodia: BIIIIIIIN.
Estava debaixo d’água, não mexia os braços nem as pernas e ouvia: BIIIIIIIN. Acabara toda a loucura, baixou o santo e me deu um estalo total de lucidez: estou morrendo afogado.” (trecho do livro)
Quando eu li eu fiquei muito espantado, lembrei da minha época da escola quando fui a um passeio na Rede Sarah de Hospitais. Lá eles fazem diversas apresentações e mostram os riscos envolvidos nas mais diversas atividades, até mesmo algo que era comum e eu adorava: andar em pau de arara. Lembro de uma mulher que palestrou, ela contou a história de sua lesão. Ela ia para uma chácara com seu tio, e sabe? Aquelas brincadeiras de criança em que se quer ir na caçamba? O tio, com todo o cuidado do mundo ia super devagar, cerca de 20km/h, mas, o problema é sempre o mas, teve um buraco… E bem, ela caiu, quando você anda lá, numa caçamba, você precisa se segurar e é tudo tão rápido, perigoso, eles estavam a 20 km/h. Felizmente o tio dela era médico, e fez uma intervenção, fez um pequeno corte em sua garganta e, por um milagre, ele tinha uma caneta bic, no bolso da frente da blusa, que usou como tubo para que ela pudesse respirar. Se não fosse isso, ela teria morrido. Essa história me impressionou muito, e nunca me esqueci, e eu tinha 10 anos, era um passeio da quarta série. Desde então, sempre evito andar em pau de arara, me chamam de chato por prezar a segurança, alguns até duvidam da minha masculinidade. O passeio continuou e tivemos diversas palestras, entre elas o perigo de se pular em piscinas, lagos e rios sem checar a profundidade. E jamais pular em lugares que tenham pedras ou que as pedras se movam. No livro, Marcelo fala cerca de 7 vezes que nunca imaginou que pular num lago pudesse lhe causar uma lesão. Será que o seu relato, o seu livro, nos ajudou a fomentar a divulgação dessa informação? Depois que aprendemos isso é meio óbvio que se você pular no raso, ou em pedras, você pode bater a cabeça e morrer. Só que só é óbvio quando você sabe.
“Já no primeiro capítulo mostra-se uma estatística assustadora: nos Estados Unidos há 10 mil acidentados por ano que resultam em paralisia por lesão de medula. Calcula-se que há duzentos mil paraplégicos vivendo lá, dos quais 70% por acidente de carro ou esporte. Os outros 30% são mergulhos em piscinas sem profundidade. Que chocante, então meu caso é muito comum nos Estados Unidos, ou no mundo inteiro. Mas como, se nunca ouvi falar disso? Nunca conheci nenhum outro rapaz que tivesse também feito um mergulho infeliz. Nunca ouvi de nenhum médico para tomar cuidado ao mergulhar de cabeça numa piscina. Que coisa.” (trecho do livro). A referência que ele nos traz é de um outro livro: “The Total care of Spinal Cord Injuries”.
Nós acompanhamos a jornada dele, o período de reabilitação, luto, assimilação e aceitação. Acompanhamos uma história real, por ser real é ficcional? É literatura? Gosto de pensar que a literatura é uma forma socialmente aceita da mentira. E uma história autoficional teria elementos de mentira? E pensar isso tem alguma relevância? Nós sentimos a sua dor. E vibramos quando ele consegue se locomover com sua própria cadeira de rodas e tem início no processo de reabilitação. E esse processo é aprender a desenvolver a autonomia até onde for possível, para conseguir uma independência. E nós homens hein? Que mesmo com um corpo funcional muitas vezes não conseguimos fazer nada sozinhos.
Como o próprio Marcelo cita no decorrer da obra, ele não quer ser tratado como um santo. Ele é apenas um homem. Um macho. E não posso deixar passar como fiquei incomodado com a objetificação das mulheres no livro. E até mesmo ele, um cara que se denomina socialista, ainda é também um completo escroto. Esse talvez seja um problema em você se autoficionar, não é somente um personagem é a figura dele, e como um homem do seu tempo reproduz o comportamento social do seu tempo. E nós homens, precisamos nos policiar, para não reproduzir o que culturalmente nos foi ensinado. Aqui ele começa a fazer terapia, e imagina como seria:
“Logo já imaginamos quão excitante seria ficar deitado num divã com uma analista de minissaia. Daí, falaria dos meus problemas sexuais, contaria um caso excitante para criar um clima e, por fim, falaria da minha atração por mulheres mais velhas. Se ela não quisesse transar comigo, eu me suicidaria. Então, ela, com pena de mim, tiraria a sua roupa e nos amaríamos debaixo de um retrado do Freud.”
É um livro que você é conduzido pra aceitar aquela condição, aquele destino, aquela fatalidade. Tem um sentido para tudo o que vivemos ou ele apenas foi um azarado que pulou numa piscina, bateu a cabeça e se tornou tetraplégico? Mas é um livro engraçado também, que te leva ao drama, à dor da condição humana, ao mesmo tempo que te faz rir e se indignar com essa raça de homens que somos nós.