#0086 Sobre o livro: "Os Imortais"
Ontem fez muito calor no meu apartamento. Olhando os valores brutos de temperatura no Distrito Federal, não quebrou nenhum recorde de temperatura. Foi um dia normal de setembro. Mas não ventou, e quando não venta, o apartamento fica com um ar quente e seco, que parece que você vai morrer aquecido.
Neste ano, estamos vivendo um elemento concreto das mudanças climáticas aceleradas pela ação humana. E o super El niño veio e vai afetar a nossa vida; talvez seja o primeiro ano em que a nossa nova vida vai ser diferente de tudo que conhecemos, como foi durante a pandemia. Os carros subiram, a maioria dobrou de preço e nunca mais voltaram ao mesmo patamar. Talvez seja assim com a gasolina, os alimentos, energia. Imagina por um momento que todos esses custos dobram de valor, seria um mini caos. Se o presidente for o Lula, é bem provável que o tirem de lá.
Quando penso sobre tudo isso me vem o livro, “Os Imortais” da Paulliny Torty é uma história com uma premissa bem doida, um grupo de Neandertais se depara com uma criança Sapiens e a adota. Pelo menos foi isso que levei de expectativa para o meu encontro com o livro.
E temos esse enredo, mas é um livro tão magistralmente bem construído que me levou e dei uma mini pirada. É muito interessante a história. Começamos acompanhando a história do Homem, vamos acompanhando seus pensamentos e a forma como ele tenta cuidar do clã de Neandertais. Todos sentem muita fome, estão migrando há vários dias, e não encontram comida.
A história se desenrola até eles encontrarem uma caverna, e eles decidem que precisam daquela caverna. Só que a caverna não era vazia, existia um grupo de sapiens lá, eles cercam a caverna, impedindo a entrada e saída do outro grupo. A expectativa do Homem é que eles se rendessem, de alguma forma pudessem se integrar, e enfrentar juntos aquela intempérie. Mas isso não acontece. E eles descobrem que existia uma outra saída da caverna, do outro lado. E o Homem fica, como não pensei nisso antes?
Os Neandertais eram maiores e mais fortes que os Sapiens; nessa incursão eles matam os homens da caverna, restando uma mulher, uma idosa e uma bebê. As mulheres sapiens conseguem de alguma forma comida e compartilham com eles. E nisso, vamos observar, nos detalhes, que a inteligência dos sapiens é maior que a dos Neandertais. É tudo muito sutil.
Como por exemplo, um dos neandertais no percurso até a caverna foi ferido por um javali, e ele está há dias e dias inconsciente. A ferida em sua perna tá cheia de larvas, algo muito feio, infeccionado. A mulher sapiens idosa pega uma madeira, aquece no fogo e enfia na parte do neandertal. Isso faz com que aquela ferida se cicatrize, proporcionando que aquele indivíduo se recupere.
O livro é brilhantemente construído, pois esse Neandertal, que é curado, é o mesmo que mata a mulher.
O livro vai brincar com os nossos conceitos de inteligência e vai modificar a perspectiva. Depois que eles conseguem se apoderar da caverna, o livro pára a acompanhar os pensamentos da Mulher.
E ela fica impressionada também com a inteligência das outras mulheres sapiens. E ela decide, após o pequeno ter matado a mulher sapiens, ficar com aquela criança. Depois de alguns anos, eles migram da caverna, e passamos a acompanhar a narrativa pela perspectiva da criança.
Acompanhamos o desenvolvimento da criança sapiens que se torna uma mulher. Mas ela é excluída do grupo, ela é diferente. As outras crianças só riem dela. E a ela não é permitida muita coisa.
A Mulher é responsável por cuidar do fogo, e as mulheres que se dedicam ao fogo não podem ter filhos. E somente as mulheres podem cuidar do fogo, uma tradição passada de geração em geração. Dentro do grupo, há a lenda que qualquer um que fizer o fogo e não for a Mulher ficará amaldiçoado e cego.
As maldições. O livro brinca o tempo todo com esses preconceitos e essas correlações forçadas, por exemplo, de que eles estão passando fome por terem carregado a criança sapiens. Enquanto ignoravam outros sinais do tipo das mulheres sapiens que possuíam um conhecimento que eles não tinham e, portanto, poderiam aprender com elas.
Nós estamos o tempo todo fazendo isso: ignorando o conhecimento que outros possuem sobre a realidade.
E ficamos lá, tranquilinhos, enquanto as coisas estão esquentando.
O final do livro traz uma erupção vulcânica. E não consigo não relacionar isso com o que estamos vivendo sobre os efeitos do aquecimento global. Tudo esquentando, prestes a explodir, e uma parte de nós dizendo que é tudo invenção.