#0082 De que adianta eu ter construído um robô para ler o meu inbox se antes eu não o lia?
ou: a gostosa sensação de produzir somente para poder procrastinar
Sabe aquele momento de Eureka, em que nós pensamos numa ideia super foda e partimos para a construção de nossa própria Babel? Comigo é assim, quase todos os dias. Mas na maioria dos dias não é algo que é positivo, e foi assim que tive essa ideia de construir um robô (um agente de Inteligência Artificial que se conectasse ao meu e-mail) para ler todos os e-mails e me trazer somente as melhores informações. O detalhe disso é que eu não lia meus e-mails, eu tenho 106089 e-mails não lidos. Todos esses e-mails não são importantes, se fossem importantes eu teria lido.
Quantas vezes será que eu em vez de fazer algo fiz uma outra coisa? Eu perguntei para a IA, pedindo pra ela analisar o meu diário e ela me levantou 12 vezes que fiz isso. Em 2019 eu quis criar um Canal no YouTube sobre livros. Já se passaram 7 anos e nada, porque eu tenho um perfil claro, antes de colocar a mão na massa eu primeiro preciso me cercar de uma falsa certeza de que estou fazendo o melhor possível. Então, em vez de sentar, gravar um vídeo, editar e postar, gravar, editar e postar. Fiz cursos. Depois, encarei a câmera e se eu começasse primeiro pelo Instagram? Até que comecei. Mas em vez de gravar, editar e postar, foram meses e meses pesquisando o melhor programa de edição. Escolhi, fiz o curso, aprendi o básico, fiz alguns vídeos e deixei de lado.
Era como se eu pegasse um desafio, só que essa coisa nova não pudesse ser simples, afinal é muito fácil gravar, editar e postar. Todo mundo faz isso. A voz vem forte na minha cabeça dizendo que comigo precisa ser diferente, é necessário construir algum diferencial. Avalio todos os caminhos disponíveis e escolho o mais complexo, faço um plano, são tantas etapas, que me embananam e logo vejo que é impossível cumprir aquele planejamento.
Desisto.
Só que, em vez de encarar a dor da desistência, entender que eu errei, que escolhi o caminho mais difícil e que eu mesmo poderia ter simplificado a minha vida, eu encaro um outro projeto. Eu encaro um outro projeto. E isso é interessante, foi um insight que a IA me deu. Parece algo mais urgente, uma oportunidade única, um novo desafio, como se minha cabeça já soubesse que os planos não dariam certo, e estivesse procurando um novo grande projeto: agora vai ser diferente! Mas nunca é diferente.
Você também deve ter sido bombardeado de coisas sobre a inteligência artificial, alguns alarmistas dizendo que ela vai nos matar, outros, vendendo a ideia de que não precisamos mais nos revoltar, as máquinas vão deixar todas as pessoas do globo ricas! E junto com isso, vem aquela ideia neoliberal de que você está perdendo a próxima grande onda, que se você não surfar a culpa vai ser sua, igual era o Bitcoin lá em 2013. A tal da culpa, ela me pega bastante, esforços os neurônios ao máximo para participar dessa nova era. Parece que sempre estou perdendo um bonde, a coisa nova. Tive a ideia de criar um agente para verificar os meus e-mails, olha que legal, ele vai ler, vai resumir, etc. Passei alguns dias falando para a inteligência artificial como ela deveria agir, o que fazer, quais e-mails, tudo ficou pronto. Nunca usei. É simples, antes disso eu não li meus e-mails. Comecei a observar meu comportamento, de estar criando coisas novas com a IA, mas coisas que antes eu não fazia, então em vez de conseguir ter um ajudante e ter mais tempo livre para a minha arte, comecei a passar mais tempo otimizando algo que construindo.
Minha última grande distração foi a minha máquina de escrever digital. Como eu estava me distraindo muito começou a vir uma vontade forte de ter um dispositivo que a única função dele fosse escrever. Esse dispositivo é quase uma caverna, onde você entra e se isola do mundo e de todo o restante. Algumas empresas começaram a captar esse movimento e desenvolveram, posso citar pelo menos duas a FreeWrite e a Byok, mas os dispositivos eram tão caros… Você já deve estar imaginando o que aconteceu, aquela vozinha veio de novo, e se você criasse seu próprio dispositivo? Com a ajuda da IA você poderia pedir para ela criar o programa e rodar num Linux. Primeiro pensei em comprar um Raspberry PI, que é um dispositivo do tamanho de um cartão de memória, que é um computador completo e pode rodar o Linux (que é um sistema operacional livre), mas eu precisaria conectar a tela, e depois o teclado, e sim, talvez alguma dia eu faça esse projeto, só que eu tinha um notebook velho que ficava só ganhando porria, e recentemente eu troquei sua bateria, fiz uma boa manutenção dele, deixei praticamente zero. Ele foi a vítima. E passei vários dias extras criando esse tal dispositivo, que aliás, boa parte desse texto foi produzido nele, sem distrações. Realmente é impressionante o tanto que consegui escrever em 20 minutos
Parece mesmo, que aquela promessa de que vamos trabalhar menos parece cada vez mais distante.