#0079 Mil palavras que valem mais que 1000 imagens
ou: sobre a beleza de cada lugar
Pareço uma boa pessoa, mas costumo fazer comparações pelos lugares onde eu vou, por exemplo o Jalapão com a Chapada Diamantina. Eu sei que é injusto, comparar uma banana com uma maçã esperando o mesmo gosto, e pior, às vezes, para fazer essa comparação invento uma categoria completamente arbitrária para justificar a comparação, neste exemplo, poderia dizer que ambas são frutas. Neste sentido, é totalmente ilógico esperar o gosto de maçã ao comer uma banana, mas eu estava esperando.
Não posso negar que tenho um carinho especial pela Bahia, foi o primeiro lugar onde conheci o mar. Lembro das diversas vezes que viajei para lá, e são lembranças tão deliciosas que me abrem um sorriso. Lembro que nessas viagens eu passava próximo a Chapada Diamantina, via imagens da região, e havia ali um chamado. O território da Chapada Diamantina é enorme, abrange mais de 20 municípios na Bahia, e também, existe nele um parque ecológico que carrega o mesmo nome. Antigamente era conhecida por abrigar garimpos (daí o diamantina), mas que depois de uma luta quase insana, foi transformada em parque e hoje sua economia é fomentada também pelo ecoturismo, sendo o município Lençóis o principal ponto de apoio para a concretude de tudo isso.
Tive o privilégio de conhecer esse lugar em junho deste ano, e lá, você faz trilhas. Muitas dessas trilhas são difíceis, exigem técnica de escalaminhada (subir e descer pedras), além de um bom preparo físico, equilíbrio, etc. Na trilha mais difícil que fiz na vida — foi uma trilha para a cachoeira Fumacinha, são 18 quilômetros, com diversas travessias de rios, encontro de vários relevos, foi realmente difícil — eu dizia a mim mesmo: olha, pisa e firma. E repetia como um mantra. Num momento de confiança excessiva, tropessei, cai, bati o ombro no chão, a boca em uma pedra. Até hoje, 4 meses depois, sinto um pouco de dor no ombro — fiz uma ressonância e existe uma pequena lesão na região — e tenho uma afta na boca; acerca desta, como um exemplo de homem a não ser seguido, ainda não fui numa dermatologista para verificar. Terminamos a trilha, vislumbramos um dos locais mais lindos que meus olhos já viram.
Recentemente, viajei ao Jalapão, que é uma outra pegada. Você entra em máquinas 4 x 4, se expreme junto a outros adultos e vai embora. No início da expedição senti uma dificuldade de conseguir aceitar que era uma proposta de viagem diferente. Era como se em algum lugar dentro de mim eu quisesse o gosto da maçã comendo a banana. Nosso grupo era formado por pessoas maravilhosas. Mas ainda assim é uma viagem longa, percorrendo distâncias enormes (+ de 1000 km) em estrada de chão, onde apenas veículos 4 x 4 conseguem atravessar.
De fato eu falhei em apreciar a beleza disso. É desconfortável viajar por um carro numa estrada de chão. Todavia, o carro nos proporcionou cruzar lugares que só poderiam ser acessados de carro (4x4). Não teria como fazer esse percurso (+ de 1000 km) a pé e em 5 dias. A nossa existência é praticamente inexistente diante do espaço do nosso planeta, universo. Contornando a nossa limitação com a tecnologia foi possível observar lindas paisagens, banhar em fervedouros e cachoeiras e se conectar com as mais diversas pessoas.
Em minha defesa, sinto que os lugares que me marcaram, eles de fato fizeram uma marca em minha alma, tornando-se um parâmetro que serve como medida para avaliar os outros. Além disso, conhecemos um senhor, é sempre um privilégio conhecer pessoas, e até me lembrou a mim mesmo, pois ele, em cada frase que falávamos, comparava o Jalapão a Bonito/MT. Demorei até conseguir organizar a minha cabeça e sentir os elementos daquele lugar.
É como se eu fosse um copo cheio e as novas experiências fossem a água. Comparar as paisagens e lugares com a minha memória é como tentar encher o copo que já é cheio, você derrama a água, e não consegue ver a beleza da água que molhou o chão fora do copo.
Esvaziado eu pude ver.
Quando eu permiti que a beleza me encontrasse, foi como ouvir uma música que é sua favorita, mas que cada vez que seus ouvidos encontram a melodia, novas células do seu coração parecem que são acordadas. E foi assim que me senti ao ver dunas no meio do cerrado. Dunas lindas. A minha cabeça não pôde entender aquilo, aquela geografia. A memória falhou ao tentar se lembrar das explicações do colégio. Mas o corpo pôde sentir os versos do cerrado.
O lugar tinha uma centena de pessoas, todas, inclusive eu, preocupadas com o movimento de tirar a foto perfeita. Vejo o ritual, que por vezes me recuso a participar, outras me obrigo a participar. O ritual diz que contemplar não é suficiente. É preciso registrar, mostrar para todos os amigos que estive naquele lugar, como se existisse um desejo que só é completado se eu despertar no outro o desejo de viajar para o mesmo lugar que eu. Como se ao viajarmos aos mesmos lugares fizéssemos parte de um clubinho. É o vírus da aparência: são fotos demais para se lembrar, reviver, memorar.
Subimos nas dunas.
Era tanto barulho. O som que fazemos quando não conseguimos nos calar para contemplar é: barulho. Mas quem sou eu para dizer que é preciso olhar além de uma foto quando estamos numa duna no meio do cerrado?
— E se tirar uma foto, registrar o momento seja o movimento que faz com que essas pessoas permaneçam viva? — me lembrou Kamylla.
Talvez eu devesse só cuidar mais da minha própria vida e não me importar. Mas é difícil quando o barulho abafa a música do cerrado.
Sobrevivi.
No dia seguinte conhecemos os fervedouros, que experiência incrível, são piscininhas de água cristalina com buracos! Ah, os buracos! Eles são fendas que fazem com que a água surja do rio subterrâneo e essa água que vem do subsolo para o solo faz com que você não afunde, mesmo que tente, mesmo que se jogue.
Originalmente, esses locais eram habitados pelos povos Xerentes que se desenvolveram as marges do rio Tocantins. Quando desfrutei desse paraíso me questionei: como não restaram indígenas nesta região? Pois quando você pergunta aos guias, não há uma única menção aos povos originários, como se eles nunca tivessem existido. E apesar dos vestígios arqueológicos de habitação, a área estava inabitada quando os quilombolas chegaram, procurando por um lugar onde pudessem viver. Escrever isso é de uma profunda dor, pois eu sei mais sobre os gregos e romanos que sobre a história dos nossos ancestrais indígenas.
Felizmente, existem políticas públicas que fomentam universidades federais, que nos ajudam a construir novos saberes acerca da realidade que nos rodeia. Foi assim que encontrei o artigo que fala sobre as origens do capim dourado. A comunidade Mumbuca ficou famosa por seu trabalho artesanal com o capim dourado, e Mumbuca significa em Tupi abelha azul, uma abelha que era comum naquela região. Essa comunidade tem por volta de 150 famílias, que segundo Isabel Belloni Shmidt foi o povo Xerente os precursores na arte do capim dourado:
“A técnica de costurar pequenos molhos de hastes (escapos) de capim
dourado com “seda” de buriti (Mauritia flexuosa Mart., Arecaceae) em feixes
concêntricos que caracteriza o artesanato de capim dourado do Jalapão tem
origem indígena. A confecção artesanal iniciou-se na região há cerca de 80
anos quando “índios que vinham do lado do Araguaia” passaram pelo
Povoado da Mumbuca e ensinaram “Seu” Firmino, morador do Povoado, a
“costurar capim” com seda de buriti (SCHMIDT, 2005, p. 23). ” (MELLO, Janaina Cardoso de. A cultura Xerente e seu artesanato dourado (Revista Patrimônio e Memória, Unesp, 2014).)
De toda a forma não é um consenso essa informação sobre o capim dourado, para outros especialistas e para o próprio povo Mumbuca, como podemos observar no Memorial do Capim Dourado, eles atribuem a criação da cultura à Laurinda (conhecida como Dona Miúda), matriarca também da comunidade quilombola Mumbuca.
Viajar nos permite isso, entrar em zona que não podemos imaginar. Como eu poderia saber que os indígenas habitaram aquela região há pelo menos 10 mil anos antes do presente até a chegada dos portugueses? Sem o incômodo da ausência de memória? É claro que não posso impor aos outros que se sintam assim ou utilizem a viagem como ferramenta para se conectar a sua própria ancestralidade. Além de que as fotos são mais um sintoma da colonização de nossas mentes nessa distopia tecnocapitalista que vivemos. Entendo também que não são todas as pessoas que querem acessar tudo isso, saber também pode nos causar ausência de esperança. Mas sempre haverá resistência: os Xerentes, sobreviveram aos portugueses, bandeirantes, fazendeiros e ao próprio Estado Brasileiro, e falam e ensinam apenas seu idioma as crianças até os 5 anos, somente depois deixando-as aprender o português como segunda língua.