#0078 Sobre o desejo de limpeza
ou: só é gente quem produz
Um dia desses recebi a informação que Brasília tinha a maior quantidade de pessoas em situação de rua do Brasil. Como um bom analista de dados, fui verificar a veracidade da informação. Em minha defesa, os números não eram como eu lembrava, e quando nós recebemos um dado que não confirma uma crença pré-estabelecida nós duvidamos e vamos atrás da informação. Eu me lembrava de ter visto que em Belo Horizonte existia o dobro de pessoas em situação de rua que em Brasília, mesmo que a capital mineira tivesse uma população menor que a capital federal. Bem, Brasília é uma coisa meio doida, ela é, ao mesmo tempo, um Estado e uma cidade, e foi daí que tiraram que o maior percentual de pessoas em situação de rua do Brasil é em Brasília. Mas não como uma cidade, e sim como o Estado. Qual a diferença? Brasília sai de terceira maior cidade brasileira para apenas o vigésimo estado. Quando pegamos o índice por Estado, e consideramos Brasília como um Estado, proporcionalmente Brasília tem a maior quantidade de pessoas em situação de rua, segundo os dados da matéria. Todavia, os dados do último Censo, de pessoas em situação de rua, mostram que Brasília tem 3521 pessoas em situação de rua, e possui uma população de 2,8 milhões de pessoas. Quando comparado aos outros Estados o número é o maior, apesar de ser bem ruim a análise dos dados, e não baterem com os dados reais, que são os do CENSO, clique aqui para ler a matéria.
Sendo a líder ou não, esse é um problema da nossa sociedade, mas, que nós fechamos os olhos. Eu mesmo, muitas vezes, fecho os olhos. Se eu for sentir, realmente, todos os problemas e contradições da nossa sociedade, eu não vou ter forças nem pra me levantar da cama. E essa minha falha também contribui. Um dia desses, um colega me mandou uma foto da Abordagem Social, queixando-se do governo, dizia ser um absurdo uma pessoa acampada em frente ao seu prédio; prédio este, cujo valor médio do metro quadrado varia entre 11 mil e 15 mil reais. Obviamente, é um absurdo, gastar-se milhões num apartamento e na porta do seu prédio existir uma mulher acampada, te lembrando que o mundo tem uma exclusão social desproporcional. Eu deveria ter dito que mais de 80% da população em situação de rua é de homens; que poucas mulheres conseguem sobreviver, que talvez naquele local ela tenha se sentido segura, que ser mulher no mundo é um desafio à parte, que nós homens não podemos nem arranhar o sentimento de saber o que é isso. Mas me calei.
E por mais que eu não concorde, eu até entendo. Na cabeça dele, é como se só quem produzisse pudesse ter o direito de existir. Se você não produz você é um peso para ser carregado por toda a sociedade. Faz sentido? Parece muito arcaico um conceito desse. Pois tudo que se leva em consideração é a produção, e a produção, não é nada. Quanto tempo vai demorar para que os robôs possam fazer tudo o que fazemos? Quando formos inúteis perderemos também o nosso direito de existir?
Sei também que me falta uma gestão emocional e menos culpada. Em vez de sentir medo ou nojo, acolher. Pensar que não é uma responsabilidade apenas do Estado, que é de toda uma sociedade. E bem, sinto que meu colega não pensa assim, se ele paga os impostos dele, a responsabilidade passa a ser do Estado, segundo ele. E igual ele você conhece muitos. Agora, no meu mundo imaginário que louco seria se todos eles se juntassem, fizessem uma vaquinha e provessem uma moradia para aquela mulher?
Mas nem sabemos o nome dela. Nem eu.
O problema desses pensamentos é que perdemos a capacidade de enxergar o outro como um ser humano. Vemo-os como objetos que, se não produzem outros objetos, não têm valor. Não vemos como uma pessoa em situação de rua, é o mendigo. Não passa: quais os problemas que aquela pessoa enfrenta? Ela tem depressão? Ela tem algum vício? Qual a história daquela pessoa? E podemos cair rapidamente na falácia da culpa individual. E se existe uma culpa individual, existe então, uma solução individual. Bem, nossa governadora conseguiu sancionar a lei nº 7.923, DE 17 DE JULHO DE 2026 (DF) que é uma internação compulsória humanizada. Internar de maneira compulsória, para alguns, parece ser a solução, tirar das ruas, higienizar, limpar.
Isso nos lembra que todos os direitos sociais, toda a igualdade, tudo aquilo pelo qual tanto lutamos e nossos ancestrais também, sempre estarão ameaçados, basta que nós durmamos por um segundo e perdemos tudo. E, a população em situação de rua é uma população que tem direitos. Inclusive, se uma pessoa quiser permanecer na liberdade de ficar em qualquer lugar que ela quiser, ela pode. A cidade é um local comum, ela é de todos. Nós não possuímos nenhuma propriedade. Por mais que existam certidões nos cartórios dizendo-nos a posse dos imóveis, nós não temos nada, é impossível possuir algo. Nós só conseguimos viver dentro de nossas cabeças.
Eu vou aproveitar pra lembrar dos direitos da constituição federal, que entre eles nós temos o direito à moradia. Então, deveríamos buscar políticas públicas para a construção de moradias para toda a população. E existe um programa chamado ¨moradia primeiro¨, que em outros locais do mundo, se mostrou muito eficiente e eficaz. Quando você primeiro dá uma moradia para a pessoa, os resultados são melhores e realmente a pessoa tende a sair da situação de rua. E não, simplesmente, tratar as pessoas como uma poeira e jogar pra debaixo do tapete.
Antes de encerrar esse texto, existe um outro lado também, que enquanto não conseguimos construir uma sociedade em que exista um lugar para cada pessoa poder exercer a sua humanidade, e isso não é um sonho utópico, vale ver esse vídeo sobre o Havaí eles construíram uma sociedade que passou de 100 pessoas para 250 mil em 700 anos. Enquanto não conseguimos avançar nesse ponto, teremos medo, muito medo do diferente, se pensarmos na quantidade de pessoas em situação de rua, a quantidade de ataques, é irrisório, mas, mexe com um medo coletivo e dá ibope na matéria, Da Asa Sul a Ceilândia ataques em série de pessoas em situação de rua a pedestres aparavora o DF