Em busca do inútil

← Em busca do inútil

#0077 Sobre a falácia de começar outra vez

ou: escadas, prisões, pontes, caminhos e caos

03 de Setembro de 2026

PIRANESI, Giovanni Battista. Carceri d'invenzione (Prisões Imaginárias), Prancha VII. 1761. Água-forte.
PIRANESI, Giovanni Battista. Carceri d'invenzione (Prisões Imaginárias), Prancha VII. 1761. Água-forte.

Eu já falei para algumas pessoas que nunca é tarde para recomeçar, mesmo que eu nunca tenha recomeçado. Me lembro de julgar, quando mais novo, pessoas que ficavam em relacionamentos que aparentemente elas não queriam estar. E quando nós somos jovens, parece que já conhecemos todas as verdades do mundo. No auge dessa arrogância eu nunca imaginaria que estaria tanto tempo num mesmo trabalho, que eu não gostasse tanto.

Uai, então por que você não sai da Caixa? E veja bem, não é tão simples. Mas, digamos que durante muito tempo eu exerci a coragem para pensar em realmente sair. Para sair é preciso arrumar uma outra ocupação, e o que eu sei fazer além de ter os conhecimentos necessários para trabalhar no banco? Nada. Além disso, quando eu olho para um outro trabalho, os que parecem ser mais interessantes e fazem meu coração realmente pulsar, pagam menos, muito menos do que eu recebo hoje. Quando eu comento com alguém recebo aquele olhar: “seu doido, como você vai sair daqui para ganhar menos?”. É uma energia tão intensa que consegue me paralisar. E entendo todas aquelas pessoas que vivem o “apenas ok”.

É como se para sair do lugar, e não é um lugar ruim, nem mesmo a escala 6 x 1 é minha realidade. E quando comparo a minha bolha com o restante do país há um monstro lá fora que paralisa, porque qualquer caminho a ser escolhido é um caminho desconhecido. E o desconhecido pode ser muito pior que a realidade atual. E o pior: ganhando menos. Não sejamos hipócritas, os hobbies são legais, mas ter o conforto de uma casa, um carro, e uma segurança financeira também são.

Sinto medo.

Como uma psicóloga de um amigo meu disse uma vez, estar na merda é bom, que é quentinho. Além disso tudo, não é como se eu de fato odiasse meu trabalho. Muito longe disso. Meu perfil é muito adaptável e eu consigo encontrar prazer até nas coisas mais banais da vida, como trabalhar num emprego burocrático. Mas sei também, que no meu ambiente ainda existem mágoas, que doem. Eu conto mais sobre isso na carta-0001, se quiser conhecer mais esse projeto clique aqui . Por mais que nunca tenha sido o sonho da minha vida, meu trabalho hoje é o que permite a realização do sonho da minha vida que é escrever.

Mas mesmo assim consegui a coragem necessária para me mover e tentar algo novo. Mesmo que isso significasse abrir mão de alguns benefícios como: trabalho remoto, horário flexível, plano de saúde, e remuneração. De longe a remuneração é onde o calo mais aperta. E além disso, eu preciso estudar, do zero, para um novo concurso. Não é completamente do zero, pois eu tenho experiência, sei mais ou menos como estudar. E isso é muito difícil.

Não saber, voltar a posição de aprendiz, é doloroso, muito doloroso. É desconfortável, você não sabe, parece que nunca vai conseguir aprender aquele conhecimento. E do nada você aprende. Mas até a chegada do aprendizado é como se você estivesse num limbo completamente obscuro.

Ainda assim, tenho a sensação de que estou regredindo. Como se a única opção para a vida fosse ganhar sempre mais. Sei que isso parece ilógico. Mas é como se eu estivesse jogando fora os meus últimos treze anos de trabalho, como se treze anos estivessem escorrendo para o ralo. E isso é difícil. Eu sei que o que foi vivido e todas as relações que foram construídas vão comigo para o túmulo, e que nada do que aconteceu lá eu possuo. Mesmo assim dói.

Nós associamos a vida a uma dinâmica linear. Começamos estudando o ensino fundamental, passamos para o médio, depois o superior, por fim a faculdade. Mas a vida sobe, desce, cai. Aprendemos coisas, esquecemos outras, desistimos de projetos, construímos coisas, abandonamos relacionamentos, enfim. É cansativo, eu sei. E, bem, mudar uma situação que é apenas ok, tem me exigido uma força absurda, para vencer aquele medo. Pois mesmo que o futuro se torne pior que o presente, o tentar, não fará tudo ter valido a pena?