Em busca do inútil

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#0076 E se eu fosse pai?

ou: será que você existirá?

03 de Setembro de 2026

DA VINCI, Leonardo. Views of a Fetus in the Womb. c. 1510-1513. Pena, tinta e giz vermelho sobre papel, 30,5 x 22 cm. Royal Collection Trust, Castelo de Windsor.
DA VINCI, Leonardo. Views of a Fetus in the Womb. c. 1510-1513. Pena, tinta e giz vermelho sobre papel, 30,5 x 22 cm. Royal Collection Trust, Castelo de Windsor.

Se eu tivesse uma filha hoje, talvez a visse chegar aos 40 anos, segundo as tábuas do IBGE, pois minha expectativa de vida é de mais 43 anos e 6 meses. Será que ela se interessaria por meus textos? Se eu continuar escrevendo uma crônica todas as semanas chegarei à crônica 2.314, e isso seria algo surpreendente; se eu conseguir uma certa inspiração para escrever mais de uma crônica por semana, só durante algumas semanas, poderia sonhar chegar até a crônica 2.500? Se meu pai tivesse escrito crônicas eu com certeza leria todas, ou qualquer coisa que ele tivesse escrito. De toda a forma, em 2070 (limite da minha expectativa de vida), é muito provável que não exista mais o Substack, ou outras redes sociais. Como será o mundo no ano 2070, será que essa filha existirá? Qual o mundo que eu deixaria para ela?

Os robôs terão adquirido consciência? Ou melhor, será que eu poderei te explicar o que é uma consciência? Imagine, nós discutindo sobre culturas e civilizações que vivem em outros cantos da galáxia? E a física? Será que já terá sido unificada? Nós ainda viveremos na Terra? Em Marte, terá existido uma colonização? E com tantos avanços tecnológicos a nossa sociedade terá atingido um bem-estar social mínimo para você construir a sua própria família?

É difícil adivinhar o futuro, ou melhor, é impossível, filha. Quando olhamos os textos de ficção científica do passado, quase todos apostavam que existiriam carros voadores. Ninguém imaginou redes sociais da forma como elas existem hoje. Quando vamos num restaurante, olhamos para as mesas do lado e vemos os casais que não se olham mais nos olhos, estão com as cabeças abaixadas rolando as redes sociais, não suportam nenhum tédio, é louco né? Você deve estar estudando nos livros de história os absurdos desse tempo. O celular que se tornou uma extensão de nossos corpos, e nós gastamos vida, vida, numa realidade que não existe. Nós conseguimos alfabetizar 86% de toda a população, e não temos uma única pesquisa sobre os hábitos de leitura em nível mundial.

Quando eu olho para o passado para exercitar minha bola de cristal e ver o seu futuro, vejo que a vida é completamente diferente do que foi nos anos 2000, ao mesmo tempo, mudou tão pouco. Eu estudava, ia ao trabalho, me comunicava. Existia celular, existia internet, existiam redes sociais, o que mudou foi a velocidade. É como se tivéssemos tomado um esteroide de ansiedade. E nessa década tivemos a grande novidade das inteligências artificiais, pois é, filha, eu vi nascer esses robôs. E caramba, não construíram robôs pensantes como as ficções científicas imaginaram, as grandes empresas varreram a internet, e sem autorização (fico pensando se os grandes escritores e escritoras da Literatura Mundial teriam autorizado suas obras a serem moídas como carne para alimentar um robô) treinaram essas inteligências artificiais e querem nos fazer engolir que construíram robôs inteligentes.

Será que no ano de 2070 você poderá trabalhar poucos dias na semana e se dedicar às relações, poder explorar o amor? Poder ser humana? Imagine você podendo ler a maior parte dos livros escritos, pelos seres humanos, aprendendo os mais diversos idiomas, se dedicando aos mais variados esportes, não tendo que se preocupar com ataques e violência, não se preocupando se o seu corpo será violado, tendo uma vida plenamente humana?

Como será o Brasil que vamos te deixar? Segundo o IBGE, o auge da população brasileira será por volta do ano de 2041 e, a partir disso, nossa população vai encolher. Pois é, encolher. E lendo algumas matérias sobre isso, vi que tem algumas implicações de que não fazia ideia, como por exemplo, é provável que a oferta dos imóveis seja maior que a procura, ou seja, os imóveis começarão a desvalorizar. E nós que iniciamos os nossos financiamentos por agora, pagaremos 3 apartamentos para ele valer metade daqui a 35 anos. Mas existe o lado bom, com o encolhimento das populações irá ter diversas ofertas de imóveis. Mas infelizmente você sabe o que fazemos com o excedente de alimentos, nós destruímos, em vez de distribuirmos. Espero que as grandes incorporações não destruam os imóveis, as cidades, somente para valorizar os poucos imóveis que restarem.

Quando pensamos no futuro, filha, há o medo. Não há como saber se deixaremos um mundo melhor ou pior que o da minha própria realidade. Eu temo vivenciar o fim da humanidade. Temo ser a última geração a ter vivido num mundo em que há condições de se viver e não apenas sobreviver. Temo que este seja o ano do golpe e que o país em que vivemos se torne uma das piores ditaduras do mundo. Mas quando penso em tudo isso, não consigo deixar de ter esperança, esperança de que se nós estamos nessa Terra há tanto tempo, se saímos de moléculas simples e nos tornamos conscientes de nossa existência nesses bilhões de anos, tenho a esperança de que mesmo que eu não tenha as respostas do como, ou do porquê, nós ainda continuaremos aqui em busca, em busca do inútil.