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#0073 Humanos Descartáveis

ou como aprendemos que humano é quem produz

19 de Julho de 2026

The Third of May por Francisco Goya
The Third of May por Francisco Goya

Um dia desses assisti a um vídeo de uma prefeita, do sul do país, retirando pessoas em situação de rua, das ruas. Você poderia até sentir um alívio ao imaginar que o Poder Executivo Municipal, finalmente, estava garantindo os direitos dessa população vulnerável durante essa abordagem. Espero, sinceramente, que tenha pensado isso e não que é necessário higienizar a cidade. A ação exercida pela prefeita mói qualquer direito dessa população. Inicia-se como um reality show mostrando e ridicularizando essas pessoas, em que ela diz só admitir (em sua cidade) quem é trabalhador, se aquela pessoa não tem um trabalho, imediatamente, ela é removida para a sua cidade natal. Há uma confusão na existência de um ser humano, nesta lógica, só há um humano se houver um trabalho. Recentemente o Supremo Tribunal Federal publicou a ADPF976 que visa garantir os direitos da população de rua, foi uma ação que argumentava a omissão do Estado, em relação às políticas, falta de dados, e o aumento desenfreado da população em situação de rua, que de 2012 a 2020 aumentou cerca de 140%. Vale destacar dentro dessa decisão: “Proíbam o recolhimento forçado de bens e pertences, assim como a remoção e o transporte compulsório de pessoas em situação de rua;” Portanto, a prefeita não poderia coagir e “varrer o problema” para debaixo do tapete. Vale ainda destacar, que segundo o IPEA, 69% da população em situação de rua exerce alguma atividade para conseguir dinheiro, e destes, ainda 1% tem carteira assinada, mas os ganhos são insuficientes para manter uma moradia. Nós precisamos observar que é uma decisão apoiada por um certo grupo populacional, basta vermos as visualizações, comentários, etc. Esse grupo que tem a aporofobia, isto é, medo e o descaso com a população que vive na extrema pobreza, mesmo que muitos deles também não sejam, digamos, ricos. Para eles, as pessoas são assim porque são preguiçosas e não querem trabalhar. Trabalhar em qual condição? Dentro dessa ideologia, a distribuição de renda é na verdade uma compra disfarçada de votos, como eu citei, se a pessoa não tem um trabalho, ela não merece existir. E não importa se o trabalho mata a pessoa para ganhar 1 salário mínimo, se esquece que cerca de 70% dos salários de empregos no Brasil pagam menos de 2 salários mínimos. E quem se desgasta ao extremo, sem carteira assinada, muitas vezes não consegue nem 1 salário mínimo. É óbvio então que essa ideologia vai só privilegiar quem consegue superar as adversidades e ainda assim trabalhar, mas se esquecem que pessoas são infinitas, às vezes, ela é humilhada, ela não suporta viver naquelas condições, e quando percebe, é tomada pelo vício (e isso é um dos fatores, existem muito mais fatores que cabem numa crônica sobre um vídeo que eu vi e me enojou). Mas a população brasileira lutou muito e conseguiu vencer uma parte dessa ideologia e escrever na nossa própria constituição que todas as pessoas são dignas dos mesmos direitos, inclusive aquelas que não têm um trabalho, uma casa, uma família. E o Estado precisa promover um mínimo social, pois é, é uma obrigação do Estado proteger o indivíduo e a família para que eles possam ter uma vida digna de um ser humano. Em vez de se higienizar é preciso construir abrigos, hotéis sociais, prover moradias, contratar profissionais qualificados que possam trabalhar com a complexidade de uma demanda dessa. E não tratar um ser humano como um objeto e enviar pra outra cidade. E se nós não estivermos atentos, em pouco tempo perdemos os mínimos sociais que duramente conquistamos. Vale ainda mencionar a conquista da Constituição Federal de 1988 que foi o SUS. Por mais precário que seja, demorado, você acaba sendo atendido, antes, se você não tivesse um emprego de carteira assinada, ou você pagava um hospital particular ou já era. E muitas vezes, em vez de pensarmos em melhorar o que nós temos, nós pensamos que tem que acabar mesmo e privatizar, e esquecemos que nós mesmos não temos condição nenhuma de pagar pelos serviços privados de saúde. Portanto, não é uma ajuda, uma compra de votos ou qualquer outra coisa, são os direitos que foram conquistados, por toda a população, com muita luta.

Se esse texto te tocou, na crônica-0030 eu me pergunto se uma vida vale mais que a outra — e na crônica-0051 conto como minha esposa, assistente social, trabalha com pessoas em situação de rua e me mostrou que mudar o mundo de algumas pessoas já é o suficiente. Já na crônica-0042 eu meto a paciência na nossa cara: somos todos alecrins dourados que acham ter a solução pra tudo sem estudar o bastante. E se você se reconheceu naquele “dizemos que detestamos o sistema mas agimos como ele espera”, a crônica-0062 é prima irmã disso.

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