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#0070 Não é sobre futebol, brincadeira é somente sobre futebol

"O jogo de futebol é um teatro da vida, mistura de alegria e tristeza, de razão e emoção, de planejamento e improvisação, de técnica e fantasia." Tostão

01 de Julho de 2026

Foto da seleção brasileira de 1934, disponível no arquivo nacional.
Foto da seleção brasileira de 1934, disponível no arquivo nacional.

Depois de emocionar com um dos jogos mais interessantes que já assisti de copa do mundo (Brasil 2 x 1 Japão); senti uma emoção tão forte que eu quase pensei: nossa, isso aqui não é somente sobre futebol, daí voltei para a realidade me lembrando que a inteligência articial está modificando até o meu modo de pensar, parece que agora buscamos o super significado em tudo, quando, as coisas, são somente as coisas. Convenhamos que é de uma beleza você olhar para os lados e ver todos os brasileirinhos vestidos de brasileiros, é como se por um breve momento nós conseguíssemos separar as diferenças e torcer para um único objetivo: o hexa. Eu não sou um conhecedor de futebol, nem das táticas, nem da história, nem de nada. Então meu contato com o nosso Tricampeonato mundial foi por meio da série da Netflix sobre o Tri. Não há como não assitir a série e não fazer alguns paralelos com a contemporaneidade. Do mesmo modo como ocorre hoje, a seleção havia sido fisgada por um grupo específico político. Mas, superamos aquela vez, e certamente vamos conseguir superar esse novo trauma e vestir a camisa da seleção sem medo de, você sabe. Trouxe no início da crônica a foto da seleção de 1934, numa época que havia brigas torrenciais entre os jogadores profissionais e os amadores. E a seleção, parecia, talvez, ser amadora? Bem, eles viajaram para a Copa que foi na Itália, de navio, e fizeram toda a sua preparação no convés do Navio. Voltando a contemporaneidade, ontem foi um dia belíssimo, vimos o Brasil jogar com garra, força, talento individual, coletivo, errando, e superando o erro. Vimos também o Paraguai passar pela poderosa Alemanha, além é claro, do Marrocos despachando uma Holanda, chega dá um quentinho no coração: europeus voltando para casa. E quem não ficou abatido quando o Japão fez aquele gol que atire a primeira pedra. As lágrimas só não vieram aos meus olhos porque o grupo estava comigo, eu olhava para o lado, a Kamylla, minha esposa, abatida, me olhando como quem pede algum consolo: e agora? Vai dar certo? Mas torcer é isso, nós não podemos fazer absolutamente nada, além de mandar a energia e nos sincronizarmos. Ah, essa tal da sincronia: “[…] no outono de 2021, foi publicada na revista eNeuro uma pesquisa da Universidade de Tecnologia de Toyohashi (Japão), dirigida por Mohammad Shehata, a qual demonstra que o trabalho em equipe tem uma correlação cerebral, isto é, que a consciência não seria apenas individual, mas também grupal, pois quando várias pessoas dividem uma tarefa que requer uma alta carga emocional, cria-se um estado hipercognitivo que gera uma maior integração da informação entre os cérebros dos indivíduos e uma intensa sincronia neuronal. Quer dizer: os cérebros implicados começam a funcionar da mesma maneira. E, assim, desligam simultaneamente o registro dos estímulos externos, exceto a informação proveniente dos demais indivíduos da equipe, e potencializam a atividade das ondas cerebrais beta e gama (que gerenciam a vigília e a lucidez) no córtex temporal. E o mais extraordinário é que todas essas mudanças são sincronizadas, todos os cérebros compartilham as mesmas oscilações neuronais. Esse trabalho não é o primeiro a respeito da sincronia entre os humanos.” - O perigo de estar lúcida, de Rosa Monteiro. Só posso deixar o meu relato que naquele memento parecia que eu sentia o mesmo que aqueles jogadores, o desânimo, caramba, levamos esse gol justamente agora que estávamos melhor na partida. Mas então veio o intervalo, e nada como uma boa comida de rabo. Eles voltam mais concentrados, e fazem o que há de melhor: gol. Casemiro, finalmente, faz sua redenção, depois de um primeiro tempo pavoroso, em que ele divide a bola com um jogador da nossa seleção, faz um gol histórico que nos faz perder a voz, gritando loucamente. O Brasil cresce, nós gritamos como se estivéssemos no estádio, como se nossa mente estivesse sincronizada, como se nosso país fosse um só. **E Vini Júnior dá aquele drible, preciso de um grande jogador, naquela jogada, naquele momento você sente o infinito, sente que não há descrição, não há palavra, é inefável. ** não entendi aqui amor. Bate na trave. A trave! Quantas vezes não esbarramos na trave, fazemos tudo certo, e por um vento, sei-lá, uma falta de sorte não marcamos aquele golaço? Já pensou se nós não levássemos tão a sério isso, igual não levamos tão a sério o futebol? A vida é talvez somente a vida. O coração acelera, a barriga dói em cada ataque do Japão. Medo. Angústia. Agônia. Celebramos juntos, sofremos juntos, amamos juntos, odiamos juntos! E essa é a hora que nós procuramos significados mais profundos, embora, nem sempre, esses significados ocultos existam, uma brincadeira pode ser somente uma brincadeira. Eu poderia apelar nessa crônica e dizer que não é sobre futebol (igual a IA faria), que é sobre os sonhos de uma nação, de um povo que se une para mostrar ao mundo, um gigante que está acordando! Mas a realidade é que o futebol é exatamente isso, é emoção o tempo inteiro, é o jogo que permite que o melhor não vença. É um jogo que precisa do talento, do coletivo, da torcida, e claro, de muita sorte. Futebol é isso. É lindo. E as vezes é somente isso, um milimetro de um goleiro inspirado que pega o chute do Vini Junior e impede um dos gols mais lindos da copa. O jogo continua, é bola de um lado, bola do outro. A Kamylla me olha como quem diz: não aguento mais. Calma, nós vamos ganhar, no útimo minuto, senti, não foi no último minuto, mas praticamente na última bola, Martinelli deixa o dele, no penúltimo minuto, tirando o peso de uma nação inteira. E é claro que o juiz não encerra o jogo, e são mais 5 minutos de angústia, de medo, de terror. Até que vem o apito final e gritamos, comemoramos, em alguns minutos que se estendem em toda a eternidade de minhas breves memórias: amor, grito e glória. Abraço minha esposa e naquele momento tudo é lindo, enxugo suas lágrimas, e não precisamos dizer nada, porque todo mundo sabe: O Brasil voltou.